domingo, 3 de junho de 2007

História do Comércio ganha destaque em exposição (*)

Os passos largos e rápidos marcam o ritmo da região do Comércio. De um lado para o outro, pedestres seguem para o trabalho, fazem filas nos bancos e movimentam as lojas do bairro, um dos mais antigos de Salvador, que ganha destaque com uma exposição no Instituto de Educação e Tecnologias (Inet), em cartaz até o dia 30 de junho.


Quinze painéis contam um pouco da história do local, que desde a fundação da cidade foi centro de atividades mercantis da capital baiana e, por essa característica, recebeu o nome de Comércio. A exposição “Comércio da Cidade de Salvador: Histórias e Imagens”, foi organizada pelo historiador Cid Teixeira e mostra a influência de estrangeiros, a exemplos de portugueses, espanhóis, alemães, franceses e ingleses - na formação da localidade.


A exposição é resultado de uma parceira entre o Inet e a Bovesba. Os painéis foram organizados pelo historiador há cerca de quatro anos, quando foram expostos na Bolsa de Valores da Bahia (Bovesba) para contar um pouco da evolução histórica da área, com informações sobre a Cidade Baixa, o Elevador Lacerda e a Ladeira da Conceição, além de outras áreas da região, que apesar das transformações e das reclamações de comerciantes, ainda preserva muitas características que a tornaram relevante para a cidade.


É lá onde ainda se concentram muitos bancos, financeiras e vendedores ambulantes. Ruínas abandonadas e antigos sobrados acinzentados, com vidraças quebradas, desgastados pelo tempo, ainda são indícios da importância que região teve durante anos para o Estado. Entre as edificações mais antigas, se destacam prédios mais novos, com fachadas em vidro e sem detalhes. São edifícios comerciais que ainda resistem no local e atraem intensa movimentação para a área.


Nas calçadas, não faltam barraquinhas de lanches e gente passando apressada. A movimentação nos becos fica por conta de ambulantes, que comercializam todo tipo de mercadorias: antenas, cofres de barro, DVDs piratas, carteiras, bolsas. Quem passa para trabalhar não tem tempo de observar a diversidade dos artigos vendidos e dos serviços disponíveis na região, que também abriga lojas de confecções, sapatarias, papelarias e armarinhos.


“Aqui o movimento é grande, mas a gente tem que acompanhar o ritmo dos clientes, que passam rápido. É uma região que atrai pessoas de diferentes classes sociais e, por isso, um lugar bom para trabalhar porque conhecemos muitas pessoas”, destaca o vendedor Uelson Souza, 25, que há quatro meses trabalha em uma loja de confecções próxima ao Plano Inclinado Gonçalves.


Nem todo mundo que trabalha na região, no entanto, está satisfeito com o movimento. Há 47 anos trabalhando no local, o chaveiro Valdomiro Barbosa, 69, recorda a época em que não tinha tempo para descansar em serviço. “O Comércio era mais movimentado. Logo quando comecei a trabalhar aqui não tinha como parar para respirar por causa do grande volume de serviço. Agora os meses melhores são dezembro e janeiro, mas há horas que o movimento está tão fraco que dá até sono”, conta.


Com as décadas de trabalho no Comércio, o chaveiro acabou fazendo muitas amizades. A relação com os comerciantes da região era tão boa que eles o apoiaram a instalar uma barraca no local em 1960. “Não era permitido ter comércio na calçada e eu precisei de uma carta dos donos de estabelecimentos declarando que o meu negócio não traria prejuízo para a região. Muita gente daqui assinou. Tenho essa carta até hoje”, relata Barbosa.


Na esquina próxima ao local onde o chaveiro trabalha, a baiana de acarajé Tereza Trindade, 60, vende suas iguarias de segunda a sexta-feira. Com 25 anos de trabalho na região, conta que o movimento em seu tabuleiro sempre foi suficiente para garantir a sobrevivência. “O movimento aqui sempre foi bom. Mas agora, com as faculdades, melhorou um pouco mais”, disse, sem precisar quantos acarajés vende por dia.


As faculdades que Tereza se refere foram instaladas na área a partir do plano de revitalização da região, criado em 2004. Além das instituições de ensino superior, outros empreendimentos têm sido instalados no Comércio, atraídos pelas facilidades oferecidas pela prefeitura.


Alexandre “A prefeitura oferece incentivos fiscais para as empresas, reduzindo o ISS de 5% para 2% no caso de atividades econômicas como hotéis, faculdades, call centers e empresas de micro e pequeno porte. Além da redução de ISS, em alguns casos, há isenção de IPTU”, explica HariBrust Filho, um dos coordenadores do Escritório de Revitalização do Comércio, subordinado à Secretaria Municipal de Infra-Estrutura (Setin).


Novos empreendimentos


Segundo ele, quando o projeto foi iniciado 65 mil pessoas circulavam pela região. Em dois anos de trabalho, o número passou para 130 mil. O aumento do fluxo de pedestres e a atração de novos empreendimentos são vistos com bons olhos pelo urbanista Armando Branco, mas com ressalvas. “O investimento do poder público em pavimentar praças é positivo, mas tem q ter manutenção permanente. O comércio tem vida própria. O que se precisa é diversificar os tipos de atividades existentes para fortalecer a dinâmica que a região já tem e tornar a área interessante para quem passa pelo local, mas também para pessoas de outros pontos da cidade”, pontua.


Novos empreendimentos com diferentes atividades também são importantes para movimentar a área além do horário comercial. Um exemplo é o Museu du Ritmo, centro cultural criado pelo cantor e compositor Carlinhos Brown, que desde fevereiro de 2007 funciona no antigo Mercado do Ouro. Além de servir como espaço para shows e galeria de arte, o museu também tem como objetivo ser agente de transformação social, beneficiando comunidades carentes, a exemplo da região do Pilar.


Mas a instalação de novos negócios e o conseqüente aumento do fluxo de transeuntes no local preocupa os freqüentadores. É que nas ruas estreitas não há muitas vagas para estacionamento e alguns motoristas ainda pioram a situação ao parar em filas duplas. “Para quem tem carro é complicado arrumar vaga. È preciso chegar cedo aqui, porque às 8h as ruas já estão cheias”, conta o vendedor José Marcelo Ventura, 43, que há 23 anos trabalha na região.


Para aumentar a disponibilidade de vagas para estacionamento, os coordenadores do Escritório de Revitalização do Comércio planejam implantar, na área dos Fuzileiros Navais, um estacionamento de 20 mil metros quadrados com capacidade para mil veículos. Ainda em fase de conclusão do projeto e sem data para início das obras, o estacionamento seria implementado em parceria com a iniciativa privada, explica Hari Alexandre Brust Filho, do Escritório de Revitalização do Comércio.


A melhoria da acessibilidade na região é fundamental para manter o fluxo de pessoas no local, de acordo com o urbanista Armando Branco.“Não adianta atrair novos empreendimentos se não melhorar a acessibilidade. É preciso melhorar o transporte coletivo, com a criação de novas linhas de ônibus, criar espaços para os pedestres, ciclovias. Essa questão passa pela melhora do transporte em toda a cidade”, argumenta.

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Surgimento do bairro está ligado à fundação de Salvador

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O surgimento do Comércio está ligado à história de fundação de Salvador, no século
XVI. Era naquela região que os barcos ficavam atracados e o bairro surgiu a partir da construção do porto, ponto de troca e venda de mercadorias, que concentrava as atividades financeiras do Estado até o início do século XX.

“O bairro surge em função do porto, um dos maiores estaleiros do país no período colonial. O porto tinha papel fundamental nas cidades litorâneas. Na época, o canal de comunicação era o mar, por onde se dava contato com o mundo dito civilizado e local onde novas idéias chegavam”, conta a arquiteta e professora Maria do Carmo Baltar, que escreve uma tese de doutorado sobre a localidade.


A necessidade de se aterrar a região se dá logo no início da construção da cidade. Naquela época, os aterros eram realizados principalmente por trapicheiros e algumas
Irmandades, a exemplo da Santa Casa de Misericórdia. Mas a expansão desordenada fez com que a situação do comércio ficasse insustentável. “Diários de viajantes servem para mostrar como era a situação do Comércio no século XIX. Do mar, eles escreviam encantados sobre o que viam, mas quando desembarcavam no Comércio, se assustavam com a sujeira, as ruas esburacadas, a arquitetura feia”, revela Maria do Carmo.


Por causa das intensas atividades mercantis, com o crescimento da agricultura para consumo interno e exportação, surgiu a necessidade de ampliar a região, que se expandia rapidamente. “O grande aterro é feito na época da República, em 1910. Foi uma ação planejada, feita em etapas, que aterrou a região da rua Miguel Calmon até a Jequitaia”, destaca a arquiteta.


Foi também no século XIX que foi criado um projeto efetivo para a construção do porto, que começou a ser edificado no início do século XX e ganhou impulso com o primeiro governo de J.J Seabra, de 1912 a 1916. “Na mesma época várias cidades tiveram seus portos modernizados, com a ajuda do capital estrangeiro e participação do poder público, como Belém, Santos, Recife, Rio de Janeiro”, explica Maria do Carmo.


Com suas atividades fortemente ligadas às funções administrativas e financeiras da cidade, o Comércio foi considerado o coração de Salvador até meados do século XX. “Tradicionalmente os edifícios tinham uso misto. Nos prédios, as lojas de atividades mercantis funcionavam no térreo e os outros pavimentos eram usados para habitação. Aos poucos começa uma especialização da área. Nos anos 20, por causa do cacau, as grandes firmas de comércio internacional se instalaram na região. O processo se acelera a partir dos anos 50, com a verticalização, quando prédios inteiros passaram a ser utilizados para fins comerciais.”, destaca a arquiteta.


Mas a situação começou a mudar a partir da década de 60, com o processo de descentralização e a criação do Centro Administrativo da Bahia (CAB). Nesta época a região passou por uma mudança de zoneamento, passando a funcionar apenas como área comercial. Esse tipo de zoneamento também contribuiu para o enfraquecimento da região, de acordo com o urbanista Armando Branco, mas outras questões também foram importantes. “A questão da acessibilidade dificultava a movimentação no Comércio. Os edifícios e lojas atraiam muita gente, mas as pessoas não tinham onde estacionar os carros. O grande fluxo também causava congestionamentos”, explica.


Segundo o urbanista, os novos empreendimentos começaram a se deslocar da região devido à construção de avenidas de vale, que permitiam melhor acessibilidade e circulação de veículos. “Com a facilidade de deslocamento, os negócios do Comércio começaram a ser instalados em áreas como a Rótula do Abacaxi, Avenidas Bonocô e ACM, e região do Iguatemi. Com isso o Comércio perde o foco de novas intervenções e foi deixado em segundo plano pelo poder público”, conclui Branco.


Por: Marta Erhardt
Fotografia: Thiago Fernandes

(*) Retirado do site do Jornal a tarde de domingo, 03 de junho de 2007

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